Jornal Médico Grande Público

Medicina alternativa ou alternativa ao médico?
DATA
11/01/2019 10:29:54
AUTOR
Rita Ferreira
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Medicina alternativa ou alternativa ao médico?

Desde a existência humana que, de uma maneira ou de outra, se luta pela sobrevivência e pelo aumento da esperança de vida. É algo inato, o desejo de sobrevivência e de boa saúde e durante séculos foram utilizados diferentes métodos em diferentes partes do mundo, todos rumo ao mesmo fim: curar os problemas de saúde das pessoas. Com a evolução dos tempos surgiu a dita medicina “tradicional”, mas a maior parte dos tipos de medicina "alternativa” surgiram ainda antes da medicina convencional.

Os doentes são indivíduos assustados e fragilizados que vão aos “alternativos” à procura daquilo que, muitas vezes, não encontram nos médicos: a empatia. A verdade é que a grande maioria não quer um técnico que os examine e conserte como se conserta um automóvel. Se assim fosse, já a classe médica teria sido substituída por um computador (não que na atualidade o computador não esteja muito presente nas consultas, mas para já tem alguém por trás).

Aparentemente, as medicinas “alternativas” querem-nos devolver à Medicina como ela era antes da revolução científica, mas é preciso perceber que as pessoas têm boas razões para se socorrerem a elas. Não acho que as pessoas sejam tolas e isso parece-me o erro de todos os iluminados. As pessoas, ainda mais se doentes e fragilizadas, querem atenção e compreensão. Há, inclusive, estudos que demostram que a maior parte das queixas dos doentes não se dirigem à competência clínica do médico.

Os doentes queixam-se da insensibilidade, do desprezo, da distância e da frieza da pessoa que têm a sua frente e que em certa altura depositaram a sua confiança ou esperança para resolução dos seus problemas, independentemente da sua seriedade ou intensidade. Há sempre um motivo para uma consulta na perspetiva do doente. Mas eu percebo, é difícil para os médicos aceitar isto...São muitos anos de esforço, dedicação e sacrifício para nos tornarmos competentes e eficazes e diariamente somos ainda obrigados a conviver com a insegurança, a angústia e o cansaço, sem o mínimo de reconhecimento e gratidão.

É preciso compreender que as pessoas precisam de mais do que competência técnica. No passado, o povo dirigia-se aos curandeiros em detrimento dos “médicos de toga” das universidades. É verdade que seriam mais baratos mas, sobretudo, porque eram os que existiam com maior acessibilidade e em todos os lugares demasiado pobres para sustentarem um médico. Agora o povo critica, mas o Estado garante a presença de um médico (mais ou menos próximo).

Contudo, esse mesmo profissional está pressionado e, cada vez mais, alucinado pela necessidade de cumprimento de objetivos exigentes e contraditórios entre si, pela urgência constante de atualização ou pelo puro esforço físico das longas horas de consulta ou de urgência. Há, ainda, outra razão para este desencantamento do doente com o médico. Há falhas que não deviam existir, com ou sem cansaço. Não há dúvidas que existem falhas de comunicação, mas mais do que isso (e mais grave do que isso), existem falhas de humanidade.

É verdade que não se ensina humanidade como se ensina a epidemiologia e as manifestações clínicas das doenças. Ensina-se que quem quer ser médico tem de estudar muito e ensinam-se todos os princípios teóricos possíveis, mesmo que na realidade nunca passem precisamente disso...teoria. A ligação às pessoas e aos seus problemas raramente é abordada e a verdade é que essa humanidade e essa compaixão não são meramente uma questão de talento. São uma maneira de trabalhar, passível de apreender, aprender e treinar.

Algumas faculdades de medicina parecem ensaiar novas abordagens, através do estímulo ao voluntariado e colaboração em instituições de solidariedade social. Há quem crie disciplinas em que se exploram a doença, a solidão e o medo da morte. Para bem dos doentes (e igualmente dos médicos) espero bem que funcione, pois é urgente mudar e começar realmente a encan(tra)tar!

Saúde Pública

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