Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li! Mudar para um tempo que aí vem
DATA
07/01/2019 16:08:29
AUTOR
Rui Cernadas
ETIQUETAS


Desculpem, mas eu li! Mudar para um tempo que aí vem

A proporção de população idosa continua a aumentar progressivamente e as projecções para a Europa em geral, e para Portugal em particular, para 2050, são assustadoras.

Os impactos nos sistemas tributário, social e de saúde são relevantes e acentuam as pressões no campo dos dois últimos, com um crescendo de necessidades e de adequação de oferta, tendo em conta os cuidados especiais e os problemas específicos.

A questão global prende-se com a segurança do doente, dito geriátrico, o que em função do presente envolve primeiro os profissionais de saúde e depois, familiares e cuidadores ou instituições de alojamento.

Seria até adequado que ao nível da formação pré-graduada os estudantes de Enfermagem, Farmácia e Medicina recebessem ensino e orientação voltada para a preocupação e a especificidade do doente idoso e para a segurança do mesmo. As patologias múltiplas e a sua cronicidade, aliada às outras tantas prescrições medicamentosas colocam o foco na chamada inapropriada medicação e no risco da iatrogenia, por excesso, por confundimento, por erro ou por omissão.

De resto, estes riscos são acrescidos pela falta de investigação farmacológica e terapêutica dirigida aos indivíduos mais idosos, problema que também se regista relativamente à população pediátrica, compreensivelmente em ambas as vertentes por razões éticas.

O erro médico tornou-se assim um dos pontos cruciais da avaliação dos sistemas de saúde e da responsabilização dos profissionais. Basta uma rápida avaliação da bibliografia mais recente para se perceber como o desafio médico passa pela melhoria da qualidade na dispensa de cuidados e no foco sobre o paciente. Defende-se até um novo paradigma na cultura médica, susceptível de arrastar um novo conceito organizacional no processo assistencial centrado no doente.

Do que se pode ler e analisar na literatura médica poderemos estar a viver um momento de transição clara e definitiva na nossa cultura de matriz hospitalar e clássica. Dimensões como a governação clínica, a garantia de qualidade ou as auditorias sistemáticas estão ainda a percorrer os seus caminhos.

O compromisso futuro precisa de novas gerações de profissionais e técnicos de saúde, formados e treinados para um novo modelo de incorporação de exigências de qualidade na prática assistencial, num jeito tão natural quanto o da própria respiração.

A criação e gestão de recursos no circuito de dispensa de cuidados individuais passa pelo envolvimento, quiçá disruptivo, de redes formais e informais, pessoais e institucionais, que assegurem uma verdadeira integração de cuidados, mas uma continuidade temporal do processo clínico.

A noção da corresponsabilização do doente, à luz desta nova exigência do envelhecimento, implica essa nova equação face a uma perda cognitiva que, no limite, nos confronta com a demência.

Finalmente, uma ideia de aproximação a esta matéria assume o conceito de uma liderança clínica inequívoca, numa formatação interdisciplinar que, eventualmente, pode obrigar mesmo a alterações ou transformações profundas em termo de regulação dos respectivos exercícios profissionais e certificação inicial e periódica, uma avaliação contínua séria e orientada para a qualidade do desempenho.

É tempo de pararmos e pensarmos nos anos que aí vêm.

Ou mudamos desde já ou alguém há de mudar por nós.

Saúde Pública

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