Jornal Médico Grande Público

A fragilidade do envelhecimento
DATA
02/11/2018 10:36:41
AUTOR
Rita Oliveira
ETIQUETAS


A fragilidade do envelhecimento

A fragilidade no idoso remete para uma esfera multidimensional, relacionada não só com o próprio doente envelhecido, como com fatores extrínsecos. Esta temática encontra-se em debate, dado vivermos na era do progressivo envelhecimento populacional. Ora vejamos, estima-se que a população idosa seja de 22% em 2020, perspetivando-se que em 2050 um quinto da população mundial corresponda a idosos.

O envelhecimento é um processo dinâmico e progressivo, com modificações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas, com perda progressiva da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente, assim como maior prevalência de processos patológicos que demonstram maior incapacidade.

A fragilidade é um problema geriátrico complexo e desafiador para todos os profissionais de saúde. É uma síndrome caraterizada por um estado de vulnerabilidade que se deve ao declínio progressivo das reservas fisiológicas e das funções, com suscetibilidade aumentada à doença, às incapacidades e à morte.

É fundamental que os profissionais de saúde estejam consciencializados que a contínua avaliação dos riscos inerentes aos idosos, a retificação da adesão às estratégias preventivas, bem como o reconhecimento e tratamento precoce das complicações nesta população, são a chave de ouro para uma prestação de cuidados mais humanizados neste grupo vulnerável de doentes.

Como profissionais de saúde devemos estar atentos a peculiaridades neste grupo populacional: capacidade funcional, capacidade cognitiva, comorbilidades, medicação, organização de cuidados, apoios familiares e sociais. A fragilidade pode ter como sinais comuns: a fadiga, a perda de peso, a falta de força muscular, a lentidão, a imobilidade e o declínio progressivo das funções, das reservas fisiológicas e a vulnerabilidade aumentada à doença e à morte. Estas alterações fisiológicas multiorgânicas nem sempre atingem o patamar de doença, mas dispõem os idosos a risco que ameaça a sua sobrevivência.

Muitas são a definições etiológicas da síndrome de fragilidade, mas é consensual que a presença de três em cinco alterações, nomeadamente na fraqueza muscular (força de preensão manual diminuída), cansaço (sensação de falta de energia e resistência física), perda peso (perda não intencional de =>5 kg/ano), atividade física (consumo calórico semanal em atividade física diminuído), lentidão na marcha, determinam um doente frágil. A fragilidade aumenta a suscetibilidade a doença aguda, quedas, mais recorrências à urgência e hospitalização, institucionalização e morte.

O conhecimento desta temática promove um melhor planeamento de intervenções de modo a antecipar as necessidades de cuidados. As intervenções possíveis passam pela educação para saúde, no que concerne á prática contínua de exercício físico, que mostraram melhoria na capacidade de força e funcionalidade bem como na prevenção da incapacidade.  A adoção de medidas de prevenção de quedas no idoso, nomeadamente no domicílio, são uma estratégia de intervenção. Uma alimentação saudável, variada e rica em proteína ajuda a suprir as necessidades nutricionais do idoso, em maior risco de sarcopenia. A suplementação com vitamina D tem mostrado preservar a força muscular e, deste modo, poder prevenir ou tratar a fragilidade. Nos idosos frágeis observa-se um mecanismo de inflamação generalizada, pelo que o profissional de saúde deve estar atento às terapêuticas anti-inflamatórias.

É ainda fundamental rever a medicação para detetar potenciais efeitos laterais ou problemas de adesão terapêutica por parte do idoso, bem como reconhecer que o isolamento social anda de mão dadas com o envelhecimento, pelo que é crucial avaliar a rede de apoio familiares e sociais do idoso.

Concluindo, é essencial um reconhecimento precoce de sinais e sintomas de doença nesta população, pois acarreta implicações evidentes e preponderantes na morbimortalidade do idoso.

Saúde Pública

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