Jornal Médico Grande Público

Desejo de morrer em casa – o papel do Médico de Família

Portugal é atualmente um dos países mais envelhecidos do mundo, e estima-se que, em 2050, será mesmo o país mais envelhecido do mundo.1 Cuidar de doentes envelhecidos coloca um desafio acrescido ao clínico, uma vez que terá de lidar com níveis elevados de dependência, várias comorbilidades, necessidades complexas2 e maior probabilidade de precisar de cuidados diferenciados de fim de vida.

Esta previsão demográfica coloca em enfase um problema que teremos que encarar num futuro próximo: estará o Serviço Nacional de Saúde (SNS) preparado para responder às exigências do processo de morte desta população envelhecida?

Um estudo de base populacional realizado em 2010 em Portugal revelou que, numa situação de doença grave com menos de um ano de vida, e se as circunstancias o permitissem, 51% dos inquiridos preferiam morrer em casa própria ou de familiar ou amigo. Esta percentagem aumenta para 65% nos participantes com mais de 75 anos. O mesmo estudo apresentou também os locais onde efetivamente os portugueses morreram em 2010: 62% dos óbitos ocorreram em hospitais ou clínicas, sugerindo que os portugueses têm uma grande probabilidade de não ver as suas preferências para local de morte correspondidas.3

Face ao desejo de morrer em casa e ao aumento da população envelhecida previsto, com consequente incapacidade de resposta, quer física, quer financeira, por parte dos hospitais do SNS, torna-se claro que há necessidade de inverter esta enorme percentagem de mortes em ambiente hospitalar. E que profissionais de saúde irão dar assistência a estes doentes? Caberá ao médico de família ou às Equipas Comunitárias de Suporte em Cuidados Paliativos (ECSCP)?

Atualmente em Portugal só existem 20 ECSCP,4 o que pressupõe que na assistência ao doente em fim de vida no domicílio, o médico de família (MF) mantém um papel central. Mesmo que estas equipas aumentem em número, o seu objetivo passa por dar formação aos profissionais dos ACES/ULS e prestar assistência aos doentes com necessidades mais diferenciadas,5 pelo que parece claro que estas equipas não conseguirão ser responsáveis pelo apoio a todos os doentes em fim de vida. Por outro lado, as competências nucleares plasmadas na árvore da Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA) ajustam-se, de alguma forma, ao conceito de cuidados paliativos, como cuidados centrados na pessoa, aptidões específicas para a resolução de problemas, orientação para a comunidade e abordagem holística.6 Daqui se depreende que, conceptualmente, todos os médicos de família poderiam estar habilitados a gerir cuidados em fim de vida, tendo esta especialidade como característica o apoio em todas as fases de vida dos utentes.

No entanto, é sabido que os cuidados paliativos podem tornar-se bastante específicos e, portanto, a prestação destes cuidados pelo médico de família só será possível se for garantida formação sobre cuidados em fim de vida, tal como é referido no Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos 2017-2018.5 Os doentes em fim de vida, e sobretudo os idosos, apresentam múltiplas comorbilidades, que é necessário aprender a gerir com intuito paliativo, e a formação pré e pós-graduada é claramente insuficiente para que os médicos de família exerçam esta tarefa.

Será também importante definir concretamente o que se depreende por “Abordagem Paliativa”, que corresponde ao nível de formação que se aceita que o médico de família seja capaz de exercer. 5 Quais os conteúdos que cabem a estes profissionais dominar e quando devem referenciar os doentes? O Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos 2017-2018 define muito genericamente o que é “Abordagem Paliativa”, pelo que é importante que se defina com clareza os conteúdos deste nível de diferenciação, também para uniformizar os planos formativos nesta área.

Só resta uma última reflexão: caberá aos médicos de família a responsabilidade de responder aos múltiplos desafios a que estão continuamente a ser alvo?

 

Referências bibliográficas

1 – Department os Economic and Social Affairs. Population ageing and development 2012 (Wall Chart). New York: United Nations, 2012.

2 - Gomes B, Cohen J, Deliens L, Higginson I. International trends in circumstances of death and dying among older people. In Gott M, Ingleton C, editors, Living with ageing and dying: Palliative and end of life care for older people. 1st ed. Oxford: Oxford University Press. 2011. p. 3-18.

3 – Preferências e Locais de Morte em regiões de Portugal em 2010. Fundação Calouste Gulbenkian; 2013.

4 - Equipas de Cuidados Paliativos [Internet]. Sns.gov.pt. 2018 [cited 25 April 2018]. Available from: https://www.sns.gov.pt/sns/cuidados-paliativos/unidades-de-cuidados-paliativos/

5 - Plano Estratégico para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos 2017-2018. Comissão Nacional de Cuidados Paliativos (CNCP); 2016.

6 - The european definition of general practice / family medicine, [Internet]. www.woncaeurope.org. Edição 2011 [cited 25 April 2018]. Available from: http://www.woncaeurope.org/gp-definitions

Saúde Pública

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