Jornal Médico Grande Público

O Médico-Polvo

Desde os tempos da escola, quando lemos e estudámos o “Sermão de Santo António aos Peixes”, que associamos o polvo à alegoria da dissimulação, do disfarce e da hipocrisia, pela sua capacidade de adaptação ao meio e de escape dos seus predadores.

Nos dias de hoje, passados mais de dez anos e fruto da minha (curta) experiência profissional, associo o polvo, com os seus oito braços em movimento, a uma figura embrulhada em múltiplas tarefas desempenhadas em simultâneo ou de forma encadeada– aquilo a que agora chamamos, elegantemente, de multitasking.

Como médica interna de formação específica de Medicina Geral e Familiar, vejo o médico de família como o médico-polvo! Senão, vejamos:

-Tem, diariamente, uma agenda assoberbada de sucessivos utentes, que tem de consultar, em média, a cada 20 minutos. Pode dar-se o caso de (e não tão raras vezes acontece) muitos utentes necessitarem de mais tempo para que se consiga gerir um mínimo de problemas. E vai atrasando...

- Ao mesmo tempo, surgem solicitações do secretariado para que se resolvam imprevistos, muitas vezes, na hora, porque “o utente precisa do resultado das análises para agora”, “já não tem mais medicação em casa”. E vai atrasando…

- E eis que repica o telefone! É uma espécie de golpe final desferido num cérebro já moribundo, num combate desleal entre a capacidade humana e o tempo - “Peço desculpa, deixe-me só atender esta chamada”. E vai atrasando…

- Entretanto (e não pode ser de outra forma!), precisa de, no mínimo, comer e fazer as suas necessidades fisiológicas. E fá-lo a correr, por forma a perder o menor tempo possível! E vai atrasando…e, de repente, está instalado o caos! O caos na sala de espera, pelos utentes que aguardam, e o caos no gabinete, porque, a contra-relógio, o médico vê-se obrigado a abreviar as consultas e o raciocínio.

- Ainda mais, o médico faz consultas domiciliárias que são, muitas vezes, realizadas fora do seu horário laboral, porque a necessidade do doente assim o obriga;

- Também o médico de família faz renovação de receituário crónico, elaboração de relatórios, realização de telefonemas pendentes, entre outros afazeres e que (com tanto atraso!) executa, muitas vezes, fora do seu horário de trabalho;

- Entrelaçados neste novelo de consultas, telefonemas, domicílios, receitas, … terá obrigatoriamente que haver tempo para atualização de conhecimentos – sim, aquela velha máxima de que “ser médico é estudar toda a vida!”. Tempo para ir a reuniões, assistir a congressos, frequentar cursos e estudar;

- E, por fim, mas sobejamente relevante, o médico de família é, acima de tudo, humano! Tem uma família, tem amigos, precisa de cuidar e ser cuidado e só assim, atingindo a sua plenitude enquanto pessoa, conseguirá atingir a sua plenitude enquanto profissional de saúde.

O retrato do médico-polvo, como referido no início, encaixa no tão banalizado conceito de multitasking - ser multitask (quanto mais não seja porque é um estrangeirismo e os estrangeirismos são sempre bem vistos!) é atingir o pináculo das capacidades enquanto profissional, é ser o melhor exemplo de eficiência. Acredita-se que ser multitask é um bom meio de aumentar a produtividade, mas cada vez mais surge evidência de que lidar com várias responsabilidades em simultâneo, geralmente, leva à ineficiência, fazendo com que os profissionais se tornem cada vez menos habilitados a dar resposta às situações, mesmo quando estão focados em apenas uma tarefa.

Ser multitasking é, no mundo atual, ser aquilo que a sociedade nos exige a todos que sejamos, gerando, no caso dos médicos de família, um desgaste constante e mais precoce, uma fadiga de decisão diária, maior probabilidade de erro, de burnout e, inevitavelmente, uma relação médico-doente de menor qualidade, competência tão intrínseca desta especialidade.

Como referido n’A definição Europeia de Medicina Geral e Familiar, WONCA Europe 2002, “é vital que o papel complexo e essencial dos médicos de família no seio dos sistemas de saúde seja totalmente compreendido pela comunidade médica, bem como pelas profissões aliadas à Medicina, pelos planeadores de cuidados de saúde, economistas, políticos e público em geral”. Assim, estes são os 8 braços do médico- polvo que considero mais utilizados no seu dia-a-dia, de tantos mais que existem e colocam o médico de família no centro de um sistema ímpar de prestação de cuidados abrangentes e longitudinais, numa perspectiva holística e de relação com o doente, a sua família e o seu meio.

Saúde Pública

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