Jornal Médico Grande Público

"Em casa de ferreiro espeto de pau" – porque nos esquecemos de nós?
DATA
06/09/2018 11:21:19
AUTOR
Carina Pereira
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"Em casa de ferreiro espeto de pau" – porque nos esquecemos de nós?

Todos nós já ouvimos os velhos e conhecidos ditados: “Em casa de ferreiro, espeto de pau” ou “Santos da casa não fazem milagres”. Tais ditos populares deixam claro o pensamento do senso comum de que dificilmente as habilidades profissionais que uma pessoa dispõe, conseguem ser colocadas em prática de maneira eficiente quando levadas para dentro do círculo familiar ou até mesmo quando estão diretamente envolvidos nos problemas.

Quando se procura conhecer os fatores que influenciam a prestação de cuidados de saúde de qualidade a um doente, encontramos na evidência científica referência à atuação precoce, aos recursos técnicos, às terapêuticas mais inovadoras e aos apoios sociais, mas raramente o cuidador-profissional de saúde é lembrado. O "ferreiro" é esquecido pelos outros, mas também deixado para segundo plano por si próprio.

Muitas vezes os cuidados prestados ao utente refletem-se ou virão a refletir-se na própria saúde do profissional. É um desafio voltar o olhar do doente-utente para o doente-profissional de saúde. Subestimamos as nossas próprias necessidades, as nossas limitações e o nosso cuidar.

E como lidar quando a ordem dita natural se inverte, quando o profissional de saúde assume o papel de doente? A aceitabilidade perante esta nova condição desencadeia múltiplos sentimentos. Habitualmente não estamos preparados para lidar com a nossa própria doença, não nos conformamos com os medicamentos que nos estão a ser prescritos, conhecemos os limites da ciência, até mais do que gostaríamos…Sabemos tudo mas não conseguimos saber estar doente, não sabemos desempenhar esse papel com o profissionalismo e o à vontade com que desempenhamos o papel do outro lado da secretária. Ser profissional de saúde é sem dúvida uma das partes mais difíceis de ser doente.

Por norma, a sociedade e as próprias instituições esquecem o profissional que faz do CUIDAR do outro a sua prioridade; cabe assim também à sociedade compreender a fragilidade humana por trás de uma bata, o doente por trás do médico.

E nós, profissionais de saúde, não devemos esquecer que somos os principais responsáveis pela nossa saúde; não devemos desvalorizar em nós aqueles sintomas que investigaríamos no nosso doente, aquela dor que nos faria suspeitar de algo nos outros mas que em nós não deve ser nada de importante, aquele cansaço que é só acumulação de trabalho.

Lembre-se que para cuidarmos do outro também precisamos cuidar de nós mesmos.

Existirá algum motivo para não sermos ferreiros ou milagreiros em nossa própria casa?

 

Saúde Pública

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