Jornal Médico Grande Público

Perturbações da Regulação do Processamento Sensorial – Uma “nova” descoberta
DATA
13/07/2018 18:12:10
AUTOR
Sara Alves Barbosa
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Perturbações da Regulação do Processamento Sensorial – Uma “nova” descoberta

Na sequência do estágio opcional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, descobri (sendo literalmente este o termo!) uma entidade nova, intitulada Perturbações da Regulação do Processamento Sensorial (PRPS).

Contextualizando, uma das classificações mais recentes da Psiquiatria da Infância e da Adolescência é a “Diagnostic Classification of Mental Health and Developmental Disorders of Infancy and Early Childhood: 0-5 years” (DC: 0-5), cuja última edição foi lançada em 2016. Esta classificação divide-se em cinco eixos:  I - “Disorders”; II - “Relational Context”; III - “Physical Health Conditions and Considerations”; IV - “Psychosocial Stressors”; V - “Developmental Competence”. As PRPS incluem-se no eixo I, a par com perturbações do neurodesenvolvimento, bem mais conhecidas – englobando as perturbações do espectro do autismo (PEA) e perturbações de hiperatividade e défice de atenção (PDAH); perturbações do humor; perturbações da ansiedade; perturbações obsessivo-compulsivas, entre outras.

Também conhecidas como perturbações regulatórias, as PRPS foram descritas pela primeira vez como entidade diagnóstica em 1993 por Greenspan e Wieder. Podem ser definidas por um padrão específico de comportamento associado a dificuldades evidentes no processamento sensorial e planeamento motor, que frequentemente comprometem de forma significativa a adaptação às rotinas diárias e relações interpessoais. Acometem crianças na primeira infância, nomeadamente a partir dos seis meses, podendo caraterizar-se por estabilidade clínica ao longo dos primeiros anos de evolução.

Por definição, a alteração da resposta ao estímulo deve ocorrer em mais do que um contexto (casa, escola, comunidade) e deve envolver um ou mais domínios sensoriais (táctil, visual, olfativo, auditivo, vestibular, paladar, propriocetivo), com duração de, pelo menos, três meses. De acordo com a DC: 0-5, podem ser definidos três subtipos: hipersensível (resposta de magnitude aumentada e latência mais rápida ao estímulo), hipossensível (resposta de magnitude e latência diminuídas ao estímulo) e outros (respostas atípicas a estímulos, frequentemente subnotificadas).

Sabe-se também que embora as PRPS se associem, por vezes, a outras condições psicopatológicas (por exemplo, perturbações do neurodesenvolvimento, perturbações do humor ou da ansiedade), podem surgir de forma independente, sem qualquer comorbilidade associada. Uma exceção diz respeito às PEA, uma vez que um dos critérios de diagnóstico destas perturbações coincide precisamente com as alterações da regulação do processamento sensorial. Isto explica a impossibilidade do diagnóstico simultâneo de PRPS e PEA.

Após um diagnóstico de PRPS, pode ser proposta terapia ocupacional com Integração Sensorial, ajustada ao perfil sensorial e subtipo de perturbação da criança, apresentando esta um melhor prognóstico quanto mais precoce for a intervenção.

É precisamente nesta altura que destaco a importância do conhecimento das PRPS e o papel dos cuidados de saúde primários no seu despiste, uma vez que a vigilância de Saúde Infantil e Juvenil se encontra à nossa responsabilidade. Não se pode ponderar uma entidade que não se conhece! Se por um lado, o conhecimento das PRPS permite ponderar o seu diagnóstico diferencial ou a presença de comorbilidades com outras psicopatologias, por outro lado, conduz a referenciação atempada a consulta de especialidade.

Nem tudo é birra, nem tudo é mimo, nem tudo é PEA, nem tudo é PHDA.

 

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