Jornal Médico Grande Público

A dieta vegetariana e o médico
DATA
27/03/2018 11:51:22
AUTOR
Ana Carolina Teixeira - Interna MGF
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A dieta vegetariana e o médico

Recentemente assisti a uma comunicação oral intitulada "Nutrição nos Cuidados de Saúde Primários" onde, entre vários temas, foi abordo o vegetarianismo/veganismo. Segundo a nutricionista, na sua prática clínica, a adoção de uma dieta vegetariana não tem surgido por motivos de saúde, mas sim por questões éticas (motivadas por algum documentário visualizado, por uma questão de "moda", entre outros). Assim, a transição alimentar tende a ser realizada de forma súbita, não planeada e não informada.

Infelizmente, tenho verificado o mesmo na minha prática. Entre os poucos casos com os quais contactei, o padrão alimentar nunca foi relatado de forma espontânea pelo utente, mas sim apurado na anamnese quando os hábitos alimentares foram abordados diretamente. Quando questionados sobre os seus conhecimentos acercado assunto, em especial sobre a vitamina B12, nenhum apresentava conhecimentos adequados. Este facto tornou-se especialmente preocupante no caso de uma grávida cujo doseamento de vitamina B12, pedido neste contexto, se encontrava no limite inferior da normalidade.

Bem, se é verdade que a informação por parte dos utentes não é satisfatória, entre os profissionais de saúde esta também poderia ser superior. Lembro-me de há uns três anos, em "conversa de corredor" entre médicos, falar-se de uma família com dieta vegetariana onde se realçava o facto de serem todos “muito branquinhos e fraquinhos”. A associação da anemia (a condicionar palidez cutânea) com o vegetarianismo existe e advém do reconhecido efeito inibitório do cálcio (presente nos lacticínios) sobre a absorção do ferro associado à menor biodisponibilidade deste elemento nos alimentos vegetais face aos de origem animal.

No entanto, perante uma ingestão adequada de lacticínios ou quando esta está ausente (veganismo), este efeito inibitório deixa de ser uma questão à partida. Ainda, numa dieta bem constituída, se pensarmos, por exemplo, que um bife com 200-300 calorias será substituído por vegetais em grande quantidade (dado o menor índice calórico), a questão do défice de ferro não constitui uma obrigatoriedade.

Neste âmbito, em 2015, foi publicado pela Direção-Geral da Saúde as “Linhas de orientação para uma alimentação vegetariana saudável”, onde a adoção de uma alimentação vegetariana é considerada saudável se adequadamente realizada. Ainda, a atual publicação em Diário da República da obrigatoriedade de inclusão de opção vegetariana nas ementas de cantinas e refeitórios públicos, realça a relevância crescente deste padrão alimentar na atualidade.  

Assim, moda ou não, o vegetarianismo parece-me algo que será tendencialmente mais abordado nas nossas consultas, cabendo-nos a nós, médicos de família, no desafio e na arte que constitui a medicina, mantermo-nos informados e atualizados por forma a melhor servirmos a nossa população.

Por fim, não resisto a terminar com a interrogação que motivou este artigo: até que ponto não teríamos vegetarianos/veganos mais informados e preocupados com as questões nutricionais se nós, profissionais, estivéssemos mais informados e disponíveis para os acompanharmos?

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