Jornal Médico Grande Público

A dislipidemia e o “efeito de limiar”
DATA
03/11/2017 17:20:16
AUTOR
Sara Silva Gomes
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A dislipidemia e o “efeito de limiar”

A doença cardiovascular (DCV) é a principal causa de morbimortalidade nos países industrializados e a Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê um agravamento deste problema nos próximos anos.

Em Portugal, cerca de 30% de todas as mortes têm origem cardiovascular, o que tem preocupado a comunidade científica e as autoridades de saúde. Entre os fatores de risco de DCV modificáveis, tem particular importância a dislipidemia, pela sua relação bem estabelecida com a doença aterosclerótica. Cada vez mais estudos demonstram que a redução dos níveis de colesterol se traduz em redução dos eventos cardiovasculares, poupando vidas e custos associados ao seu tratamento.

Apesar destes dados serem do conhecimento geral e pese embora a existência de terapêutica comprovadamente eficaz no tratamento da dislipidemia, mais de metade dos portugueses continua a apresentar valores de colesterol LDL fora dos alvos recomendados pelas normas nacionais e internacionais. Uma causa para este fenómeno parece ser o incumprimento terapêutico por parte dos doentes, muitas vezes mal informados acerca das implicações de um mau controlo da sua dislipidemia. Por outro lado, a inércia clínica.

Conhecemos os valores-alvo a atingir consoante o nível de risco cardiovascular de cada utente, mas também conhecemos bem a dificuldade de negociar com ele o início de uma terapêutica para uma doença que não se sente e não se vê. Essa dificuldade é maior quando o utente está “quase controlado”, com valores próximos de atingir o alvo pretendido, perante os quais frequentemente nos inibimos de intensificar a terapêutica como nos compete. Esta atitude, descrita como “efeito de limiar”, pode colocar os doentes com colesterol LDL (c-LDL) próximo do valor-alvo em risco mais elevado de sofrer eventos cardiovasculares do que aqueles com c-LDL francamente acima do esperado, situação na qual os clínicos tendem a ser mais interventivos, atingindo com maior probabilidade os objetivos individuais.

Vivemos num tempo em que o médico é frequentemente alvo de processos judiciais e o erro é cada vez menos tolerado. Com a facilidade de acesso à informação, os utentes estão cada vez mais capacitados e atentos à atuação dos clínicos. Uma abordagem da dislipidemia segundo as recomendações e numa base de corresponsabilização protege o médico, para além de se traduzir em substanciais ganhos em saúde.

 

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