Jornal Médico Grande Público

Desculpem, mas eu li: Confiança
DATA
17/08/2017 11:55:00
AUTOR
Rui Cernadas - Médico de família
ETIQUETAS

Desculpem, mas eu li: Confiança

Nunca ou raramente a vida de um médico se torna fácil.

O que pode não parecer relevante, numa altura em que tantos jovens médicos estão em processos formativos de diferentes fases, mas num movimento que está a visivelmente rejuvenescer a medicina portuguesa, é ou fica como um pequeno alerta e sensibilização.

Na verdade, os médicos relacionam-se com os seus doentes e com eles celebram, tacitamente, e em cada consulta ou contacto, uma espécie de contrato segundo o qual como que assumem o compromisso de os tratar, de os ajudar, de os curar, pelo menos numa expectativa que, para os segundos, é quase sempre inabalável.

Li um dia, num livro de um sábio hindu de que não recordo o nome, que a doença é um preço que a alma paga por ocupar o corpo, ideia que me marcou e que encontrou algum tipo de contraponto numa outra, do grande filósofo gaulês Jean-Jacques Rousseau segundo a qual, “o homem que não conhece a dor, não conhece a ternura da humanidade”.

No fundo, a confiança é o alicerce de qualquer relação entre partes.

Numa sociedade, num casal, numa equipa profissional ou desportiva, numa empresa, num serviço público, num estado.

Em nome da confiança, a gestão da saúde tem de ser discutida e avaliada.

Os gestores não percebem o que Balint explicitou magistralmente: “O médico é o melhor medicamento.”

E não entendem os gestores que, o medicamento “médico” é o mais barato e o mais duradouro, o mais confiável e o mais acessível.

O que vale por dizer que não é possível, nem defensável que a gestão de um serviço de saúde se balize, regule e avalie exclusivamente pelos resultados quantitativos imediatos ou de curto prazo.

Consultas a metro, cirurgias a minuto, tratamentos a litro, orçamentos a um ano, conduzirão apenas à chamada medicalização excessiva e à prática de medicinas que, alguns dizem, defensivas. Como por exemplo, a que assistimos a ser exercida em muitas das nossas urgências. Doentes com queixas banais e sem critério temporal ou clínico que justifiquem tal demanda, atendimentos em condições físicas e de constrangimentos em regra não adequados, médicos e enfermeiros a registarem tudo o que lhes permita garantir a salvaguarda dos seus postos de trabalho e a requisitarem exames e procedimentos sem fim e a medicamentarem de forma correspondente…

Mas é o preço que os gestores não se importam de ir autorizando que se pague para ter gente que garanta os serviços, enquanto as tutelas passam e não assumem a responsabilidade de mexer na legislação e obviar a que colaboradores médicos menos treinados e menos diferenciados e experientes, possam ser enquadrados e apoiados por outros na linha de frente desses campos de batalha, chamados de urgências hospitalares.

E é o preço que os políticos e os governantes não se parecem importar de assumir, enquanto permitirem que a legislação laboral – aplicável à Administração Pública – não consinta em adotar ou instituir ferramentas capazes de promover ou distinguir a eficiência, a assiduidade, a pontualidade, a iniciativa, a diversidade, o desempenho ou os resultados. Ouvindo e seguindo os que estão no terreno e podem e querem contribuir para soluções e novos caminhos…

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