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Rui Henrique: Vantagens da modulação epigenética através de drug repurposing

O Jornal Médico conversou com o diretor da Escola Portuguesa de Oncologia do Porto, Rui Henrique, a propósito da sua participação no 1.º Simpósio Português de Investigação e Inovação em Urologia, que decorreu a 8 de dezembro, na Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. O anatomopatologista foi um dos oradores do evento promovido pela Academia CUF, onde abordou uma temática ainda pouco conhecida entre a classe médica: modulação epigenética.

JORNAL MÉDICO (JM) | Em Uro-Oncologia, quais são, atualmente, os grandes desafios?

RUI HENRIQUE (RH) | O desenvolvimento e validação de biomarcadores de carcinoma da próstata clinicamente relevante, de biomarcadores de monitorização de carcinoma da bexiga e de cancro do testículo, assim como o aperfeiçoamento dos biomarcadores preditivos de resposta à imunoterapia no cancro urológico, particularmente nos carcinomas da bexiga e do rim.

JM | Qual a importância da genética no plano da investigação e da clínica em Urologia?

RH | Atualmente, a aplicação da genética na área da Urologia pode ser um fator importante, sobretudo nas neoplasias renais, em que o diagnóstico diferencial pode requerer estudo genético e algumas delas são definidas por alterações genéticas. Estamos também a dar os primeiros passos em termos gerais para a classificação/taxonomia molecular de várias neoplasias urológicas, nomeadamente nas da bexiga e da próstata. Essa caraterização poderá vir a permitir que as estratégias terapêuticas sejam distintas de acordo com esse subtipo molecular. Desta forma, poderemos influenciar o tratamento do doente e o percurso da doença.

JM | Em que consiste a modulação epigenética e qual a sua aplicação na área da Uro-Oncologia?

RH | É uma área ainda muito investigacional que tem duas grandes aplicações. Em primeiro lugar, no desenvolvimento de biomarcadores relacionados com a deteção precoce, auxílio ao diagnóstico, prognóstico e monitorização de doença.

Na atualidade, a utilização na prática clínica de biomarcadores epigenéticos está restrita a duas situações, ambas não-urológicas: como biomarcador preditivo de resposta a quimioterapia em tumores cerebrais (metilação do promotor do gene MGMT, em tecido neoplásico) e como biomarcador para rastreio de cancro colo-rectal (metilação do gene Septina 9, no sangue). Na área da Urologia Oncológica têm sido propostos diversos biomarcadores epigenéticos, considerados muito promissores, designadamente para a deteção precoce de cancro da próstata, confirmação de ausência de carcinoma em biopsia de próstata histomorfologicamente negativa, bem como para a deteção precoce e monitorização de carcinoma urotelial da bexiga e do trato urinário superior. Falta o passo essencial da validação clínica para que estes testes possam ser utilizados rotineiramente na prática.

 

JM | E para além do desenvolvimento de biomarcadores?

RH | Para além do desenvolvimento de biomarcadores, a aplicação da modulação epigenética também se aplica através da utilização de fármacos que modulam as alterações epigenéticas no sentido de tornar as células mais sensíveis a terapêuticas a que hoje em dia não são sensíveis (e não no sentido de tratar isoladamente).

Um dos grandes atrativos nesta vertente é que alguns desses fármacos não são novos, mas sim moléculas há muito disponíveis no nosso arsenal terapêutico e que podem agora ser utilizados com novas indicações. Esta área, designada por drug repurposing, tem a vantagem de não necessitar de um desenvolvimento excessivo para a sua aplicação, na medida em que a segurança destas moléculas já é amplamente reconhecida e documentada. Para além disso, estes fármacos estão mais rapidamente acessíveis no mercado, com baixo custo de desenvolvimento, na medida em que muitas destas patentes já expiraram.

JM | A temática do drug repurposing enquadra-se perfeitamente no mote deste Simpósio: a inovação?

RH | Sem dúvida. A utilização de fármacos em novas indicações, no contexto do drug repurposing, é uma forma de inovação disruptiva.

Saúde Pública

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