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Silvia Guichardo: “Em Portugal, a inovação é um desafio, mas… É possível!”
DATA
29/10/2018 15:22:04
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Silvia Guichardo: “Em Portugal, a inovação é um desafio, mas… É possível!”

Inclusiva, exigente e ciente do poder da capacitação das pessoas. É assim que a nova diretora-geral da GSK Portugal para a área farmacêutica, Silvia Guichardo, se auto-define enquanto líder. A responsável acredita que estão a ser dados passos positivos, por parte das autoridades, no sentido de tornar mais célere o acesso dos cidadãos à inovação. O subfinanciamento crónico da Saúde, reconhece, permanece como a grande ameaça à sustentabilidade do sistema.

JORNAL MÉDICO (JM) | O que encontrou, de um ponto de vista interno da companhia, mas também de uma perspetiva externa de mercado e da indústria farmacêutica (IF), quando assumiu o cargo de diretora-geral da GSK Portugal, no início deste ano?

SILVIA GUICHARDO (SG) | Encontrei uma empresa com uma performance muito sólida, tendo em conta os desafios e constrangimentos a nível financeiro que o sistema de saúde e o país enfrentaram recentemente e, em certa medida, continuam a enfrentar.

Neste contexto de contingência orçamental é interessante ver que a companhia foi capaz, não só de manter a sua performance enquanto parte do ecossistema, mas também crescer.

Congratulo-me, igualmente, com a excelente equipa que encontrei e com quem trabalho diariamente na GSK Portugal. São um grupo de pessoas muito talentosas e orientadas para o doente – um dos nossos valores – que colocam no centro de tudo o que fazem.

Em termos de carreira, a oportunidade de trabalhar em diferentes mercados e países, com ambientes socioeconómicos e culturais diversos, tem sido uma experiência única e muito rica. Permite-nos alargar horizontes, não só em relação à forma como encaramos o mercado/IF, mas também no que diz respeito à nossa visão do mundo.

Esta componente pessoal acaba por influenciar a forma como crescemos e nos desenvolvemos enquanto líderes. Acho que ter um background tão diverso nos permite ser capazes de melhor encarar diferentes pontos de vista, mas também importar as melhores práticas dos mercados que já conhecemos e onde já trabalhámos.

De uma perspetiva pessoal, enquanto líder, esta multiplicidade de experiências permite aumentar muito a agilidade em termos de aprendizagem. Por exemplo, continuo a aprender línguas novas, o que é fantástico! Permite-nos ainda potenciar a nossa capacidade de resiliência e de flexibilidade e isso é muito importante em termos de liderança, na medida em que a IF está a atravessar tempos de grande mudança, uma indústria onde a inovação é a palavra de ordem e, como tal, estas competências são fundamentais.

 

JM | Como é a Silvia Guichardo enquanto líder?

SG | Como líder, sou muito inclusiva. Acredito, verdadeiramente, no poder de capacitar cada um dos elementos da minha equipa, de forma a poderem dar o seu melhor e serem coagentes da criação de valor.

É justo dizer, também, que sou muito exigente e tenho expetativas muito elevadas relativamente a todos os que trabalham comigo. Para mim, tudo o que fazemos tem que ter foco no doente e toda a nossa conduta – seja com colegas, parceiros ou clientes – deve assentar na transparência, respeito e integridade. A par da grande exigência, há que capacitar as equipas, de forma a criar um ambiente de abertura e de confiança, que considero essencial.

 

JM | Que objetivos estão traçados para o futuro próximo em termos da atividade da GSK Portugal?

SG | Os objetivos da GSK Portugal não diferem muito dos traçados pela companhia a nível global. Temos três prioridades que refletem os nossos valores nucleares: Inovação, Performance e Confiança. Enquanto companhia farmacêutica queremos ser uma das mais inovadoras, com melhor performance e merecedora da confiança por parte de todos os stakeholders.

 

JM | E qual a correspondência desses valores globais no trabalho que desenvolvem a nível nacional?

SG | Em termos de performance, queremos potenciar a inovação, nomeadamente, nas áreas respiratória e de vacinas. Na área respiratória, os nossos medicamentos mais recentes – Anoro, Relvar e Nucala – são superiores em termos de eficácia relativamente aos já existentes e, como tal, estamos focados em fazê-los chegar a quem precisa deles.

A nossa vacina contra a meningite B – Bexsero – é outra prioridade.. Estamos muito satisfeitos com o nível de vacinação dos recém-nascidos, mas ainda há trabalho a fazer ao nível da população de faixas etárias mais elevadas. Temos como objetivo fazer a diferença nesta doença devastadora.

Queremos continuar a apresentar produtos inovadores e diferenciados. Para 2019, está previsto o lançamento de um novo medicamento na área respiratória, mais concretamente no tratamento da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC). Trata-se do Trelegy Ellipta, uma terapêutica tripla disponível num único inalador.

Mais tarde, está previsto o lançamento de um novo medicamento na área da Oncologia.

 

JM | Que medicamento é esse?

SG | Trata-se de um medicamento para o mieloma múltiplo que, prevemos, seja lançado na Europa, em 2020. É um tratamento estudado na  população de doentes refractários à terapêutica convencional. Congratulamo-nos com o facto de, apesar dos constrangimentos financeiros a nível nacional, estarmos a conseguir fazer chegar a inovação aos doentes que dela necessitam. É gratificante saber que também estamos na linha da frente da inovação numa área terapêutica tão determinante como a Oncologia.

 

JM | Pegando no tema da inovação, nos seis meses como diretora-geral da GSK Portugal, já deu para perceber se é fácil ou difícil ser-se inovador a nível nacional?

SG | Essa é uma pergunta bastante relevante… Acho que, em Portugal, a inovação é um desafio, mas é possível. É desafiante, sobretudo, devido ao subfinanciamento crónico do sistema de saúde. Ainda que se tenham registado melhorias face aos tempos de intervenção da troika, não temos o crescimento desejado, nem somos capazes de disponibilizar a inovação à velocidade que gostaríamos. Ou seja, este subfinanciamento crónico tem impacto no acesso das pessoas à inovação. Em Portugal, o tempo médio que leva até a inovação terapêutica chegar “às mãos” dos doentes é superior relativamente a outros países da Europa. Acredito, firmemente, na vontade das autoridades em tentar corrigir e diminuir estes atrasos no acesso à inovação. Em 2017, o Infarmed estabeleceu a Comissão de Avaliação de Tecnologias de Saúde (CATS), precisamente com esse objetivo: acelerar os processos de aprovação de terapêuticas inovadoras. Para além disso, o Infarmed também tem vindo a sentar-se à mesa com a IF, com o intuito de conhecer os seus pipelines, de forma a poder preparar-se melhor e planear com maior antecedência os processos de avaliação e aprovação da inovação.

Ainda não estamos lá, mas estes são bons sinais de que estamos no caminho certo.

 

JM | O subfinanciamento é, sem dúvida, um dos maiores desafios à sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Que outros identifica? E que pontos positivos atribui ao nosso SNS?

SG | O SNS tem sido classificado como um dos melhores a nível mundial em termos de outcomes. O paradoxo é que, apesar dos bons resultados, enfrenta desafios bastante significativos.

Há que ter em conta, por exemplo, a tendência para o envelhecimento populacional da sociedade portuguesa que, se por um lado, reflete um indicador positivo – o aumento da esperança média de vida – por outro lado, coloca desafios prementes ao SNS, nomeadamente, pelo aumento no consumo de recursos. Face a este cenário, urge reajustar o orçamento para a saúde, de forma a contemplar, entre outras, esta tendência sociodemográfica a que o SNS tem que dar resposta.

Acredito que se vivem tempos de oportunidade para que todos os protagonistas do sistema se unam e trabalhem em conjunto para garantir a sustentabilidade de um SNS que já provou ser capaz de responder às necessidades da população.

 

JM | Uma das mais fortes áreas terapêuticas da GSK – a área respiratória – comemora 50 anos de atividade em 2019. O que está pensado para assinalar esta importante efeméride?

SG | Será, sem dúvida, uma oportunidade ímpar para podermos mostrar o nosso compromisso para com os doentes e reforçarmos a noção de inovação como o nosso core. Se já é um feito considerável conseguir lançar um medicamento inovador em determinada área, ser capaz de disponibilizar, ao longo de 50 anos e de forma consistente, inovação e vários medicamentos inovadores na sua classe e que têm grande impacto na qualidade de vida dos doentes, é absolutamente impressionante e gratificante. E coloca-nos, a nós, GSK, numa posição única.

A melhor forma de comemorar este aniversário é termos a oportunidade de podermos lançar, em 2019, o Trelegy Ellipta, que representa um milestone para o tratamento da DPOC. Se pensarmos que esta doença é, em Portugal, a sétima causa de morte prematura, percebemos que ainda existe uma grande necessidade médica por responder a este nível. O desenvolvimento de medicamentos que reduzam as exacerbações, os internamentos e a mortalidade é crucial. Assim sendo, estamos muito satisfeitos por, neste 50.º aniversário, podermos lançar o Trelegy Ellipta, que demonstrou uma eficácia sem precedentes na redução das exacerbações em doentes com DPOC. É uma enorme alegria podermos continuar a trazer inovação de forma consistente. Acreditamos que este fármaco vai beneficiar um grupo de doentes, em Portugal, que necessita de tratamentos mais eficazes.

 

JM | Que tipo de ações tem a GSK desenvolvido, em Portugal, destinadas à classe médica?

SG | Para nós, GSK, é muito importante trabalharmos em grande proximidade com os profissionais de saúde, numa lógica de diálogo e colaboração que vai além da divulgação de dados científicos, mas, sobretudo, estabelecendo parcerias em termos de formação/educação e organização de iniciativas, sempre em prol do doente e da melhoria da prestação de cuidados de saúde. Queremos ser parceiros dos médicos, mas também das associações de doentes.

Atualmente, temos algumas iniciativas a decorrer neste sentido. Uma delas é a campanha “Vencer a Asma”. Esta iniciativa, desenvolvida em parceria com os principais stakeholders da área respiratória, pretende ouvir e compreender as limitações dos doentes asmáticos e melhorar a comunicação entre o médico e o doente, alertando-os, também, para a importância de não desvalorizarem os seus sintomas, de forma a poderem usufruir de um dia a dia sem constrangimentos.

 

JM | Quais prevê que sejam, numa perspetiva nacional e em termos globais, as tendências/dinâmicas do mercado farmacêutico a curto/médio prazo e como fará a GSK frente a esses desafios?

SG | Temos que continuar a trabalhar em grande proximidade com as autoridades, num esforço conjunto de todos os parceiros, para garantir que o acesso à inovação é uma realidade.

Numa entrevista recente, a presidente do Infarmed, Maria do Céu Machado, apontou que a inovação terapêutica é responsável por uma subida de 70% da esperança média de vida em Portugal. É a prova de que a inovação traz benefícios, pelo que é preciso resolver as questões que podem travar o acesso à mesma, nomeadamente, o subfinanciamento.

Cabe à indústria desenvolver uma abordagem de I&D verdadeiramente eficiente, sobretudo, no contexto de constrangimentos orçamentais a que estamos sujeitos. Isto é, temos que ser capazes de disponibilizar medicamentos verdadeiramente diferenciados. A este nível, estou satisfeita por ver que a GSK está um passo à frente. Basta ver a colaboração que estabelecemos, recentemente, com a 23andMe para conseguirmos desenvolver medicamentos mais personalizados, por via da genética. Acredito que o futuro passa por uma medicina cada vez mais personalizada e com a inovação a ser disponibilizada nas áreas onde as necessidades médicas estão ainda por responder.

 

JM | Que mensagem gostaria de deixar aos médicos portugueses

Agradecer-lhes tudo o que realizam no dia a dia e encorajá-los a continuar o seu excelente trabalho. São eles, em grande parte, os responsáveis pelos bons resultados do SNS.

Gostaria, ainda, de reforçar o compromisso da GSK para com os médicos portugueses, com base naquele que é o nosso lema: Do more, Feel better, Live longer.

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