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Fernanda Águas: "Ser ginecologista é ir além do conhecimento e da técnica, é ter uma mente aberta e uma excelente capacidade de comunicação"
DATA
13/07/2018 17:47:24
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Jornal Médico
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Fernanda Águas: "Ser ginecologista é ir além do conhecimento e da técnica, é ter uma mente aberta e uma excelente capacidade de comunicação"

Sob o lema Marés de conhecimento, decorre entre 7 e 10 de junho, no Centro de Congressos do Algarve (Vilamoura), o XIV Congresso Português de Ginecologia (CPG). Em entrevista ao Jornal Médico, a presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), Fernanda Águas, destaca os desafios que a especialidade enfrenta atualmente, em Portugal, ao mesmo tempo que partilha as caraterísticas que, no seu entender, “fazem” um bom ginecologista. Da tangência com outras especialidades médicas à tendência natural para a subespecialização, passando pelo futuro marcado pela inovação técnico-científica, a Ginecologia à lupa, nesta conversa pré-congresso.

JORNAL MÉDICO (JM) | Sob o lema Marés de conhecimento, o que podem os ginecologistas portugueses esperar desta edição do congresso nacional da especialidade e quais os grandes objetivos da comissão organizadora para o evento?

FERNANDA ÁGUAS (FA) | O lema Marés de Conhecimento associa-se ao local onde decorrerá o Congresso (Vilamoura, no Algarve), que é uma zona por excelência de mar. Enquanto comissão organizadora, pretendemos que o XIV CPG seja um espaço em que os participantes possam aproveitar ao máximo o conhecimento que vai ser transmitido e partilhado, atualizar-se, conhecer novas temáticas e áreas no âmbito da especialidade. Pretende-se um “vaivém” de conhecimento, à semelhança das marés. Uma vez que a Ginecologia – assim como as outras áreas da Medicina – está em constante evolução, temos que nos manter atualizados para podermos desempenhar as nossas funções, como médicos, ao mais alto nível.

 

JM | De facto, vivem-se tempos de grande inovação tecnológica na Medicina e a Ginecologia não é exceção… Nesse sentido, pode dizer-se que este é um congresso virado para o futuro? Há até uma sessão sobre cirurgia robótica…

FA | A tecnologia tem revolucionado muito a Medicina, tanto em termos de diagnóstico, como de terapêutica.

No que concerne às cirurgias, estas são cada vez menos invasivas, com a resolução de muitos problemas a ser feita com recurso a técnicas imagiológicas de intervenção inovadoras. Estou convencida que a robótica vai ser o futuro em termos de cirurgia. Para já, ainda é uma tecnologia muito pesada e cara. Mas, nos próximos anos, haverá um grande desenvolvimento desta tecnologia, com os equipamentos a tornarem-se cada vez mais acessíveis.

Assim sendo, não podemos fugir desta realidade/tendência, pelo que incluímos uma sessão e um workshop sobre cirurgia robótica no programa do XIV CPG.

 

JM | Do ponto de vista da terapêutica médica os avanços também têm sido significativos nos últimos anos. Há alguma inovação a este nível que gostasse de destacar, por ser particularmente impactante na prática clínica dos ginecologistas?

FA | Na nossa especialidade, a cirurgia major, isto é, aquela que ainda é a mais realizada nas mulheres – a seguir às cesarianas – é a histerectomia. Ao longo dos anos, temos vindo a assistir a uma redução do número de histerectomias, precisamente porque conseguimos controlar muito melhor os sintomas com terapêutica médica, nomeadamente no âmbito das hemorragias uterinas anormais (HUA), temática que merecerá destaque no Congresso.

A SPG tem vindo a trabalhar, há cerca de um ano, num documento de consenso sobre HUA que será apresentado e distribuído no XIV CPG. Trata-se de uma revisão nesta área, com base na qual a SPG emite as suas recomendações. O documento dedica-se à questão das HUA em todas as fases da vida da mulher e inclui um capítulo dedicado à hemorragia aguda. Sendo esta uma situação de emergência em Ginecologia, temos que ter linhas de orientação muito precisas, para uma atuação altamente sistematizada.

Este consenso dedica ainda um capítulo final às anemias, situação frequente nas doentes com HUA. Muitas vezes, os profissionais ficam tão focados em tratar a hemorragia, que a anemia fica para segundo plano, não sendo, de todo, um aspeto secundário. A anemia afeta, e muito, a qualidade de vida e produtividade das mulheres.

Isto para dizer que, de facto, têm surgido terapêuticas médicas que permitem evitar muitas cirurgias, nomeadamente histerectomias, como é o caso dos dispositivos intrauterinos medicados. Atualmente, a maior parte das vezes, em úteros sem doença estrutural (mioma ou nódulo), com um dispositivo intrauterino medicado conseguimos controlar a hemorragia, resolvemos o problema e evitamos a intervenção cirúrgica.

E mesmo quando temos que operar, somos cada vez mais conservadores. Recorremos cada vez mais a técnicas minimamente invasivas, com remoção da lesão e preservação da totalidade do órgão.

Quando penso na Ginecologia que aprendi, nos anos 90, e a comparo com o que faço hoje, percebo o tanto que mudou, particularmente em termos da cirurgia aberta clássica, praticamente em extinção na nossa prática clínica.

 

JM | Há, portanto, uma necessidade contante de atualização, sendo a SPG uma das sociedades que mais a promove…

FA | Pelo facto de a Ginecologia ter muitas áreas especializadas. Algumas já consignadas como subespecialidades pela Ordem dos Médicos (OM), como é o caso da Ginecologia Oncológica.

Também por isso, a SPG divide-se em múltiplas Seções, sendo que as nossas reuniões (quatro por ano) vão sendo organizadas pelas diferentes secções. Temos ainda uma reunião anual, que costuma ser em junho, em que congregamos as várias áreas e a ginecologia geral. De três em três anos, essa reunião assume a dimensão de congresso nacional.

 

JM | Considera que essa tendência para a subespecialização, que não é apanágio exclusivo da Ginecologia, é vantajosa?

FA | Considero que sim, porque nós, enquanto médicos, não podemos ter a veleidade de achar que conseguimos abarcar tudo. É impossível que um médico, nos tempos que correm e com a dimensão hercúlea de conhecimento, possa conseguir ser muito bom em tudo.

Acho que, cada vez mais, temos a enorme responsabilidade e humildade de tratar bem as nossas doentes. Só devemos fazer aquilo que sabemos fazer bem, reconhecendo que há tarefas que outros executam melhor que nós. Neste sentido, considero igualmente que as patologias e situações menos comuns devem estar concentradas em determinadas unidades e num número reduzido de profissionais, de forma a terem um volume de resolução de casos que lhes permita o treino suficiente para adquirir experiência e expertise.

 

JM | Existe, igualmente, uma tangência entre a Ginecologia e outras especialidades, como a Cirurgia ou a Oncologia…

FA | A Oncologia tem sempre uma inter-relação muito grande com outras especialidades porque a doença oncológica é transversal a vários órgãos. No que concerne à Ginecologia, é raro o tumor do ovário perfeitamente localizado, pelo que uma cirurgia deste tipo tem que ser sempre realizada no contexto de equipa multidisciplinar.

 

JM | Essa tangência também se reflete no programa do XIV CPG, com abertura à participação de outros especialistas que não ginecologistas?

FA | Sim. Teremos presença de um cirurgião que abordará os desafios inerentes à cirurgia alta do abdómen, entre outros, como as lesões do ureter, que é umas das complicações mais frequentes em cirurgia ginecológica (nomeadamente quando há alterações/distorções da anatomia).

Haverá ainda lugar a uma sessão dedicada à menopausa e, mais concretamente, aos desafios decorrentes da terapêutica hormonal na mulher diabética, em que se fará uma ponte entre a Ginecologia, a Medicina Interna e a Endocrinologia.

 

JM | Em termos epidemiológicos, quais são as patologias mais frequentes no âmbito da Ginecologia/Obstetrícia, em Portugal, aos dias de hoje?

FA | Em termos de patologia uterina, os miomas, a endometriose – ainda que altamente subdiagnosticada, uma vez que o diagnóstico definitivo é cirúrgico – e os pólipos (sobretudo em mulheres mais velhas).

No plano da patologia do pavimento pélvico, a incontinência urinária e a descida/prolapso dos órgãos pélvicos são bastante frequentes.

Ainda a considerar, a patologia da mama – sabemos que o cancro da mama é o mais frequente na mulher –, a que um grande número de ginecologistas de dedica. Igualmente importante na nossa prática clínica, a patologia do trato genital inferior, em que se incluem as lesões do colo do útero e as vaginites.

 

JM | No que concerne à prevenção no âmbito da patologia ginecológica, considera que tem sido feito um investimento suficiente a nível nacional?

FA | A vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV), incluída há 10 anos no Programa Nacional de Vacinação, é um exemplo muito positivo desse investimento. Aguardamos, a breve trecho, dados que nos permitam concluir isso mesmo, na expetativa de ver bastante reduzidos os números de cancros do colo do útero em Portugal.

 

JM | Quais são, atualmente, os principais desafios que a Ginecologia portuguesa enfrenta, sobretudo no que respeita à organização e aos recursos humanos?

FA | A minha experiência é a de quem trabalha num hospital público, pelo que os desafios do dia-a-dia prendem-se com a fase menos boa que estamos atualmente a viver no setor da Saúde, fruto de um subfinanciamento crónico. Esperemos que seja apenas uma fase passageira e não o princípio do fim do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Assiste-se, atualmente, a um desinvestimento muito grande na Saúde, com os serviços hospitalares desfalcados em termos de recursos humanos, não apenas médicos, mas de todas as categorias profissionais. As contratações continuam a ser insuficientes face às saídas de profissionais que têm ocorrido nos últimos anos.

Os serviços hospitalares estão a passar por enormes dificuldades, para cuja resolução as administrações hospitalares também apresentam muito pouca margem de manobra, na medida em que se encontram fortemente limitadas pelo poder central.

 

JM | Ser ginecologista é o tema da última sessão do XIV CPG, que contará com a participação do humorista Ricardo Araújo Pereira. Os congressistas vão, certamente, sair bem-dispostos do Algarve…

FA | Esse é precisamente um dos objetivos da sessão: voltarmos para casa e para a nossa prática clínica de bom-humor. Sabemos que o congresso tem um programa bastante denso, pelo que queremos terminar de forma mais “relaxada”.

A ideia é que alguém completamente fora da área da Ginecologia descreva o que, no seu entender, é ser-se ginecologista…

 

JM | O que significa para si ser ginecologista em Portugal, em 2018?

FA | Ser ginecologista é ter uma mente aberta, estar desperto para todas as questões que na atualidade se coloquem, saber que a postura do médico perante a pessoa que nos procura tem que ser uma postura muito frontal, muito aberta.

Hoje em dia, as pessoas querem ser informadas, querem tomar decisões informadas, pelo que as decisões têm que ser partilhadas entre médico e doente.

Considero que ser-se ginecologista, aos dias de hoje, é estar bem preparado e atualizado, ter uma mente aberta, ter uma prática humanizada e uma excelente capacidade de comunicação/diálogo. O ginecologista tem de saber comunicar, saber respeitar a mulher que tem à sua frente e ser uma pessoa honesta.

Podemos ser excelentes técnicos, mas se não soubermos comunicar com a mulher que temos à frente não seremos bons especialistas. Até porque, em Ginecologia, não atendemos apenas doentes, mas também mulheres saudáveis, que nos procuram pelas mais variadas questões (contraceção, nomeadamente). Nesse sentido, somos uma especialidade com uma forte responsabilidade preventiva e com um enorme dever, não apenas de tratar, mas também de informar, orientar, aconselhar.

 

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