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Victor Ramos: “Identidade organizacional e desgovernamentalização são indispensáveis”
DATA
27/03/2018 11:10:27
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Jornal Médico
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Victor Ramos: “Identidade organizacional e desgovernamentalização são indispensáveis”

“Um estímulo para continuar dedicado à clínica durante mais um tempo”. É desta forma que, aos 64 anos, o médico de família Victor Ramos encara o Prémio Miller Guerra, que lhe foi atribuído no final de 2017. A propósito da distinção, voltou a afirmar, em entrevista ao Jornal Médico, que “o que mais o sensibilizou foi o facto de a candidatura ter sido apresentada por um conjunto de colegas”. Conversámos com este protagonista da MGF e dos CSP portugueses num espaço que conhece bem: uma sala de aulas da ENSP, em Lisboa, onde despontou – na altura, enquanto aluno – a paixão pela medicina comunitária e de proximidade, e onde hoje é professor. É na ambivalência entre “homem do terreno” e “pensador/filósofo” que tem percorrido o seu caminho e que se autodefine como técnico, renunciando à política enquanto carreira. No que diz respeito ao Serviço Nacional de Saúde – uma das suas oito “tribos” – Victor Ramos defende a criação de uma identidade organizacional e a necessidade de uma desgovernamentalização, protegendo-o dos zigue-zagues de ciclos políticos curtos com mudanças frequentes nos Governos. Isto para que o SNS seja, cada vez mais, um serviço público com elevada qualificação técnica e grande sensibilidade social. Ao longo de hora e meia de entrevista, a humildade – caraterística que amiúde lhe é imputada de forma consensual e transversal – esteve sempre presente.

JORNAL MÉDICO (JM) | Que sabor teve, para si, ser o vencedor da 3.ª edição do Prémio Miller Guerra?

VICTOR RAMOS (VR) | O mais gratificante neste processo foi a candidatura ter sido apresentada por um conjunto de colegas ligados à Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Não querendo obviamente desvalorizar a atribuição do Prémio, a candidatura foi, para mim, o que mais me sensibilizou. Foi uma surpresa quando soube desta intenção por parte dos colegas… Fiquei a saber porque, para organizarem a candidatura, tiveram que me pedir alguns dados [risos]… Igualmente gratificante foi poder contar com testemunhos de alguns dos meus doentes. É sempre agradável receber um prémio desta natureza, pelo reconhecimento que constitui…

 

JM | O que torna este Prémio tão especial?

VR | O Prémio Miller Guerra, em particular, por premiar a carreira. Acho interessante a Ordem dos Médicos (OM) atribuir um galardão não por um ato isolado, mas por todo um percurso efetuado. Pessoalmente, este prémio representa um estímulo para continuar mais um tempo dedicado à clínica. Porque ainda há muita coisa que quero fazer…

 

JM | Para além da Medicina?

VR | Além da Medicina, mas também dentro da Medicina. Quero dedicar-me a escrever… Ando com a 2.ª edição do A Consulta em 7 passos há anos por terminar…

 

JM | O que podemos então esperar de si num futuro próximo? A prática clínica vai continuar a fazer parte do seu dia-a-dia?

VR | Pelo menos, nos próximos dois anos ou talvez um pouco mais, tenciono continuar dedicado à prática clínica. Depois, talvez opte por um regime assistencial em part-time, precisamente para ter tempo para outros projetos. Projetos esses relacionados com os cuidados de saúde primários (CSP), no que concerne à sua conceptualização… Algumas questões de ordem existencial que tenho vindo a anotar e que gostaria de desenvolver…

Envolvi-me também na direção do Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF) da OM, que é um projeto a pelo menos três anos. Tenho, ainda, a atividade letiva na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). Costumo dizer que pertenço a oito tribos.

 

JM | Quais são essas oito tribos a que diz pertencer?

VR | A da USF São João do Estoril, a da ENSP, a da Equipa Regional de Apoio (ERA) da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), a da APMGF, a da Fundação para a Saúde - Serviço Nacional de Saúde (SNS), a da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar (USF-AN)… E, obviamente, a da família e a dos amigos…

 

JM | Já dizia Abel Salazar que “um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”…

VR | À exceção das tribos nucleares – família e amigos –, e também à exceção da tribo da Fundação SNS (que é essencialmente uma questão de cidadania), todas as restantes giram em torno da Medicina.

 

JM | Mas crê que esta máxima de Abel Salazar é cada vez mais atual?

VR | Sem dúvida! É, também, uma questão de reflexão e de organização da aprendizagem. E de partilha desse conhecimento… A minha preocupação tem que ver com aquilo que somos capazes de partilhar, de colocar fora de nós, no pouco tempo útil de vida que temos… É isso que, para mim, dá sentido à vida: o que ficar cá dentro, morre connosco.

 

JM | Lembra-se do momento em que pensou: “Quero ser médico!”. Quando foi e o que o levou a enveredar pela Medicina?

VR | Não houve propriamente um momento… Posso contar-lhe a estória [risos]. Eu e um amigo viemos à boleia de Évora até Lisboa para nos inscrevermos na Universidade, em 1970. Tinha duas hipóteses: Engenharia, porque o meu irmão era engenheiro, ou Medicina, porque sempre fui uma pessoa pacífica. Com um pai militar nunca me ocorreu desertar, mas tinha a noção de que não tinha feitio para “andar aos tiros”. Sempre fui, desde a infância, o miúdo que no grupo de amigos era o apaziguador dos conflitos.

O senhor que nos deu boleia deixou-nos perto da Reitoria da Universidade de Lisboa e eu, na altura, dado a reflexões filosóficas, acreditava muito na teoria “do acaso e da necessidade”. E lembro-me de pensar que se a boleia nos tinha deixado ali na Reitoria era um sinal. Então, ao invés de ir até ao [Instituto Superior] Técnico – onde eram as inscrições para Engenharia e que eu até nem sabia bem onde ficava – inscrevi-me em Medicina, logo ali na Reitoria.

Servir como médico tinha ainda a vantagem de ser uma espécie de objetor da consciência e, assim, não ter que “dar tiros” em ninguém.

 

JM | E a opção pela MGF, como surgiu?

VR | Quando trabalhei em Évora dediquei-me muito à Medicina na comunidade... Em 78 houve a Conferência Internacional sobre CSP em Alma-Ata e eu estive envolvido na divulgação das recomendações e da Declaração de Alma-Ata em Portugal. Em 79 comecei a fazer Serviço Médico à Periferia nas aldeias rurais do concelho de Évora (Torre de Coelheiros, Valverde…) e, nessa altura, o Dr. Arquimínio Eliseu (pai) dizia-me: “Você tem jeito para isto! Devia ir para Saúde Pública!”… E não me largou até me convencer a vir fazer o curso de Saúde Pública aqui onde estamos hoje [na ENSP]… Dizia-me que precisaria de mim para a posição de subdelegado de saúde em Évora.

Foi aqui [na ENSP] que os horizontes se começaram a abrir. A necessidade do médico de MGF “apanho-a” aqui [na ENSP]. Entretanto, não participo, mas tenho contacto com dados resultantes de uma conferência sobre a formação do médico de Clínica Geral no Reino Unido e em Portugal, conferência essa de onde nasce o célebre Relatório Horder – da autoria do médico de família (MF) inglês John Horder, traduzido mais tarde para português pelo colega Falcão Tavares – e que foi, para mim, o grande ponto de partida para este percurso em prol da Medicina de proximidade e dos CSP.

Por essa altura, existia um primeiro grupo europeu de reflexão sobre a MGF, constituído por MF da geração do Dr. Horder – o Leeuwenhorst Groupque advogava a necessidade de promover a MGF e o modelo de prestação de CSP de proximidade em toda a Europa. Esse grupo de MF mais velhos achou por bem chamar médicos jovens para o movimento e foi assim que, em 1981-1982, nasceu o The New Leeuwenhorst Group, ao qual me juntei, por indicação do Prof. Constantino Sakellarides, que na altura trabalhava na Organização Mundial da Saúde (OMS).

Tudo isto ao mesmo tempo que, em Portugal, nascia a APMGF.

 

JM | Nos primórdios do que é hoje a MGF, quando lutava por uma série de valores e princípios que hoje sustentam a especialidade, tinha a noção que estava, de certa forma, a fazer história e a preparar o caminho para várias gerações de médicos de família?

VR | Não! Porque uma pessoa não tem essa consciência… Vai fazendo o que na altura faz sentido. É como se ouvíssemos uma voz a dizer-nos: “É esse o caminho! Vamos fazer isto, que é diferente do que tem sido feito!”. E depois, no The New Leeuwenhorst Group, apercebi-me que, afinal de contas, não estávamos sozinhos e estávamos quase todos a começar (à exceção do Reino Unido e da Holanda). É muito curioso perceber que vários primeiros números de revistas e inícios de associações de CSP e de MGF datam de entre 1982 e 1985, exatamente como nós, em Portugal.

 

JM | Porém, já ninguém lhe tira o título de protagonista no desenvolvimento da especialidade…

VR | É verdade… Mas, temos que ser justos: a tribo é muito grande! E foi interessante aprender como funcionam estes grupos/tribos em termos de dinâmica. São poucas as pessoas que se mantêm e muitas as que entram e saem. Temos tendência a desvalorizar as que entram e saem, mas também elas têm/tiveram o seu papel, também são “abelhas” nesta colmeia e consigo identificar claramente achegas que cada uma delas deu, em determinada altura.

Muitas vezes, a tendência é para criticar o afastamento, mas há que entendê-lo como natural, como parte do crescimento dos processos, quer individuais, quer coletivos. Há pessoas que chegam, dão uma ideia, protagonizam, são pioneiros, puxam pelos outros e depois vão fazer outras coisas… Mas tiveram impacto e foram tão importantes como as que se mantiveram. Conscientemente, consigo identificar e fazer uma lista de mais de uma centena. Este reconhecimento aumenta a nossa humildade pessoal: é preciso valorizar os que se mantém, mas sem desvalorizar os que entram e saem.

No fundo, este processo é como uma manta de patchwork, feita a várias mãos. Embora a tendência natural seja para desvalorizar e para acharmos que “estamos sempre muito mal”…

 

GRS Dr Victor Ramos 022JM | Essa é de facto uma tendência no nosso país…

VR | Há uns anos, fui a um Congresso de MGF em Santiago de Compostela que me marcou bastante. O tema do congresso era “Tanto andado, tanto por andar…”, numa analogia aos caminheiros/peregrinos de Santiago. A verdade é que, em qualquer momento da nossa vida/carreira, podemos dizer “tanto andado, tanto por andar…”, porque a tendência é olharmos apenas para o que falta fazer…

 

JM | Pegando nesse lema “Tanto andado, tanto por andar…” – e cientes de que neste percurso como protagonista na história do desenvolvimento da MGF e dos CSP em Portugal, as Unidades de Saúde Familiar (USF) foram uma das bandeiras que hasteou e acenou com maior orgulho – como olha hoje para a tão aclamada reforma dos CSP? Foi tudo aquilo que prometia ser ou ficou muito aquém do que poderia ter sido?

VR | Não gosto da palavra “reforma”. Falemos antes em processo de transformação… A implementação das equipas está neste momento a cerca de 50%. Encontramo-nos num ponto de viragem e a própria Coordenação Nacional para a Reforma dos CSP, liderada por Henrique Botelho, tem essa noção. Isto porque as forças motoras que alavancaram a primeira fase do processo já não são as que alavancarão as próximas fases. O que não é nem uma boa nem uma má notícia… É um facto! O que temos agora é uma força motora para a viragem, constituída pelos novos especialistas em MGF. É toda uma nova geração de MF que substitui a anterior.

Na primeira fase da “reforma”, tínhamos aqueles que haviam vivenciado os primeiros 30 anos de MGF. Ganharam vícios, mas também ganharam uma determinada perspetiva, baseada nos passos percorridos. Os jovens de hoje têm outra cultura – a do digital –, têm outros valores – nem melhores nem piores, simplesmente diferentes! – e não adianta tentar enquadrá-los. Quanto muito são eles que nos enquadram a nós, enquanto próximos protagonistas. Para isso, é preciso é que haja abertura por parte dos mais velhos, que ainda estão no processo. Porque a tendência natural/humana é de os mais velhos acharem que eles é que sabem como se faz...

 

JM | Considera que tem havido falta de vontade política? É defensor de que a “Medicina se exprime melhor na proximidade”. Ora, tal só é possível com investimento nos CSP, um chavão de que vários Governos se têm apropriado, mas que poucos efetivamente têm cumprido… Sendo esta uma solução comprovadamente eficaz e custo-efetiva, o que tem faltado aos decisores políticos para apostarem efetivamente numa Medicina de proximidade?

VR | Há quem tenha a ideia de que os políticos são vanguardistas, mas não o são, nem podem sê-lo… As transformações que têm acontecido seguem o seguinte registo: partem do pensamento organizado de um grupo e depois há uma concordância feliz entre esse grupo de pessoas e algum decisor político. O “papel feliz” do político é o de permitir fazer, o de ajudar a desenvolver... Foi assim na reforma de 1971, em que o político era o pai do atual Presidente da República, Baltasar Rebelo de Sousa. Foi assim com o Dr. Paulo Mendo… O “papel feliz” do político é abrir brechas e permitir que as coisas aconteçam, nomeadamente em períodos improváveis e/ou de conflito.

Foi assim com a Dr.ª Maria de Belém… O grupo do Prof. Sakellarides, do qual eu fazia parte, foi “vendendo” algumas ideias à então ministra da Saúde, Maria de Belém Roseira, que facilitou alguns primeiros passos e que, para tal, teve que travar algumas batalhas políticas! O mesmo sucedeu com o ministro Correia de Campos… Por vezes, são batalhas que lhes saem caras! Estas transformações doem no aparelho que está instalado.

 

JM | Nunca se sentiu atraído pela política?

VR | Pela política enquanto cidadania: sim! Pela política, enquanto carreira política: não!

 

JM | Mas, decerto que lhe surgiram oportunidades ao longo destes anos?

VR | Nem por isso… Porque é preciso uma pessoa ter vontade e estar disponível e eu sempre manifestei uma postura técnica. Sempre gostei da profissão, da atividade clínica. Sou um técnico. Respeito os políticos, mas não tenho essa propensão. Ser profissional da política, no sentido de ser profissional dos esquemas – ou como dizia frequentemente o Dr. Medina Carreira a propósito dos “políticos que só sabem ser políticos”, que “não sabem fazer mais nada…” – acaba por conduzir a uma certa perversidade, na medida em que se cai na lógica “do poder pelo poder”, ao invés de se respeitar a definição etimológica de política, que tem que ver com serviço público/cidadania.

 

JM | O que podemos esperar da nova geração de médicos de família de que falava há pouco e dos CSP num futuro próximo?

VR | Se acreditarmos que o modelo de prestação de cuidados em pequenas equipas está para durar – por ser um modelo bastante flexível, de proximidade, com vantagens inegáveis para os profissionais e para os utentes – vamos precisar, para fazer a cobertura do país, de um total de 850 a 870 equipas multiprofissionais, de proximidade, bem organizadas. Podemos chamar-lhe USF ou o que quisermos, com a certeza de que, nestes moldes, precisaremos deste número a funcionar no terreno.

Neste momento, temos cerca de 470 USF, pelo que estaremos sensivelmente a metade. Precisamos que toda a organização se faça neste tipo de equipas, com caraterísticas muito específicas: com autonomia, mas também com responsabilidade, com dispositivos de governação/pilotagem interna, mas também com dispositivos de abertura e colaboração em rede entre as equipas (das cerca de 470, talvez a maior parte ainda atue como “ilhas”, desvinculadas da solidariedade para com as outras unidades e a população do seu ACeS). Há portanto um trabalho a fazer de aculturação, de educação e de contaminação de valores que é um trabalho hercúleo! “Tanto por andar”…

 

JM | Em 2017, este processo estagnou completamente…

VR | Há, efetivamente, um trabalho de intensificação do processo que é necessário fazer. Houve alguém que escreveu, recentemente, que “a este ritmo, nem em 2030 a reforma dos CSP está completa!”. O que é verdade.

Em 2017 abriram pouco mais de uma dezena de USF e não houve passagens a modelo B. Temos que ver isto como um sinal. É uma mensagem política que temos que saber interpretar/compreender. Na minha opinião, é uma forma indigna de comunicar com os profissionais e, na prática, este comportamento coloca o Governo fora da lei. Porque a lei determina que até 31 de janeiro de cada ano deve sair um despacho que estabelece um compromisso com o número de USF a implementar até ao final do ano, incluindo as transições para modelo B. Em 2017 tal ficou por definir e em 2018 vamos ver… Legalmente, moralmente e politicamente é um mau comportamento.

O Ministério da Saúde alega que tem tido dificuldades em dialogar com as Finanças. Ora, desde que eu me lembro, o Ministério das Finanças faz sempre o mesmo papel. É aqui que entra a questão do poder e da capacidade política, porque para haver transformação, cabe aos governantes da pasta da saúde argumentar junto das Finanças da importância das medidas em questão. Comparado com os escândalos do BPN e do BES, estamos a falar de “tostões” para uma área enunciada como “prioridade política” do Governo e com uma enorme relevância social. As dificuldades com as Finanças sempre existiram… A vontade e a capacidade persuasiva do Ministério da Saúde é que vão variando.

Seja como for, a realidade é esta: o Governo está fora da lei!

 

Em 2017 abriram pouco mais de uma dezena de USF e não houve passagens a modelo B. Temos que ver isto como um sinal. É uma mensagem política que temos que saber interpretar/compreender. Na minha opinião, é uma forma indigna de comunicar com os profissionais e, na prática, este comportamento coloca o Governo fora da lei

 

JM | O SNS está perto de completar 40 anos. Arrisca-se a ser um “quarentão” com várias doenças crónicas que lhe retiram alguma saúde e ameaçam a sua sobrevivência?

VR | Um dos principais problemas que afetam o SNS, que como sabe é uma das minhas “tribos”, é o subfinanciamento. Mas, não será o único…

A 18 e 19 de maio decorrerá, em Coimbra, no Convento de São Francisco, o III Congresso “SNS: Património de Todos”, organizado pela Fundação SNS. Este ano, o tema principal do Congresso é algo que está estabelecido no artigo 64 da Constituição, mas que nunca foi cumprido: “O SNS deve ter uma gestão descentralizada e participada”.

Ao longo dos seus quase 40 anos de vida, o SNS não teve identidade organizacional/institucional, sofrendo de falta de unidade e de uma cultura explícita própria. Só o atual ministro da saúde, que fazia parte da direção da Fundação SNS antes de assumir o cargo, é que se comprometeu a criar uma marca, um logotipo e fê-lo. Para além do logotipo, há um conjunto de aspetos que estão em falta, para nos sentirmos todos – centros de saúde, hospitais, cuidados continuados – parte da mesma entidade, partilhando um código de valores.

A maior parte das pessoas considera natural o facto de o SNS ser administrado diretamente pelo Ministério da Saúde – essa é a tradição da administração pública portuguesa –, mas não tem que ser assim… Isso leva a que não haja uma marca, uma cultura, um código de valores, um sentimento de unidade dentro do SNS, como os que existem em grandes organizações sociais e em grandes empresas. Os profissionais [do SNS] não se sentem pertença de uma coisa maior, consideram-se do hospital x ou do ACeS y. O SNS é, para a maior parte, uma entidade “virtual” e isto não se trata apenas de um problema simbólico, na medida em que tem consequências muito concretas. Esta falta de identidade facilita a fragmentação. Se olharmos para empresas muito pulverizadas geograficamente, reconhecemos que necessitam de ter uma cultura/código de valores, regras e governação estratégica particularmente fortes para serem coesas. Essa é a construção que é necessário fazer no SNS!

 

O SNS é uma entidade “virtual” e isto não se trata apenas de um problema simbólico, na medida em que tem consequências muito concretas. Esta falta de identidade facilita a fragmentação. Se olharmos para empresas muito pulverizadas geograficamente, reconhecemos que necessitam de ter uma cultura/código de valores e regras particularmente fortes para serem coesas. Essa é a construção que é necessário fazer no SNS

 

JM | Qual a razão para ainda não se ter avançado nesse sentido?

VR | Temos oscilado, ao longo de 40 anos, entre uma tendência mercantilista e uma tendência social… Quando o ambiente político externo/mundial é mais mercantilista tende-se para a fragmentação. Não foi por acaso que com o ministro Luís Filipe Pereira surgiram os hospitais SA e houve uma tentativa de privatização dos CSP, travada pelos protestos dos médicos de família… É o paradigma de uma fase mercantilista. Ainda que favorável para os negócios da saúde, não é bom para a população. A questão é que se os negócios da saúde comprometerem o bem-estar de uma franja importante da população, que neste caso é a mais frágil e a que mais precisa – sendo que em Portugal essa fatia populacional é de mais de 50% – isso não é ético. A saúde tem de ser uma área que protege a população para que esta se torne competitiva nas outras áreas económicas. Se permitirmos atividade gananciosa numa área que fragiliza a massa crítica de um país, fragilizamos tudo o resto.

 

JM | Em declarações recentes, e na sequência do lançamento do livro de António Arnault (“Salvar o SNS – Uma nova Lei de Bases da Saúde para defender a democracia”), o ministro da saúde admite que este pode ser o momento para avançar com uma nova Lei de Bases. Concorda? Em que moldes deverá ser levada para a frente esta mudança? Que riscos poderá acarretar?

VR | Esse é, sem dúvida, um caminho a fazer. É preciso rever a Lei de Bases da Saúde. E essa revisão da Lei de Bases da Saúde cria a necessidade para um outro passo que a Fundação SNS tem vindo a defender e que é a criação de um “novo” estatuto institucional para o SNS. É preciso fazer ver que nada disto tem que ver com privatização! O que se pretende é criar uma identidade organizacional/institucional, enquadradora de todas as unidades que integram o SNS, com uma governação competente e suficientemente autónoma em relação à tutela política de cada momento.

 

JM | Que valores serão irrevogáveis nessa “nova” identidade?

VR | Desde logo, a questão da solidariedade. A questão da separação técnico-administrativa do Governo, porque a governamentalização do SNS não é favorável, no sentido em que temos um órgão político a funcionar como órgão de administração. Nem tão-pouco é desejável, na medida em que fragiliza o SNS.

Sou da opinião que não temos que seguir os ingleses “a régua e esquadro”, mas podemos aprender algumas coisas com eles… No Reino Unido, sempre que a influência do Governo aumentou houve problemas no NHS, apesar de o serviço nacional de saúde britânico ter uma governação própria desde a sua fundação. Essa governação está em Leeds, e não em Londres. Houve até esse cuidado de separar geograficamente a sede do NHS Executive da sede do poder político do país. Obviamente que o NHS segue as orientações do Governo, mas houve pessoas no NHS Executive que laboraram mais de 30 anos consecutivos na estrutura e acompanharam e aprenderam com as várias transformações… Algo com que os ciclos e calendários políticos/eleitorais não permitem.

 

A maior parte das pessoas considera natural o facto de o SNS ser administrado diretamente pelo Ministério da Saúde – essa é a tradição da administração pública portuguesa –, mas não tem que ser assim… Isso leva a que não haja uma marca, uma cultura, um código de valores, um sentimento de unidade dentro do SNS, como os que existem em grandes organizações sociais e em grandes empresas

 

JM | Essa ideia da desgovernamentalização do SNS terá que ser extremamente bem comunicada, de forma a não abrir espaço a “fantasmas” como o da privatização…

VR | Sem dúvida, porque ainda é comum confundir-se desgovernamentalizar com privatizar. Mas não é isso que se pretende, de todo! É necessário criar uma entidade pública forte! Eventualmente passa por criar, no Parlamento, uma entidade como os Institutos Públicos de Gestão Participada, ou algo do género… Algo acima dos prazos das legislaturas, que são curtíssimos para processos que levam décadas…

Estamos a tempo de criar esta estabilização, que não é de todo uma estabilização para a estagnação! Mais uma vez é preciso clarificar conceitos. Todo este processo tem que ser levado a cabo “com pinças”, porque a probabilidade de mexer e ficar pior é imensa. Mas, também não podemos ficar parados.

A 3.ª edição do Congresso da Fundação SNS pretende lançar uma reflexão sobre pontos fulcrais. Desde logo, a questão da descentralização e da participação, em que mais uma vez andamos à margem da lei! Será igualmente abordada a questão da resposta dos serviços públicos a situações de crise – desde grandes crises financeiras a catástrofes como os incêndios que assolaram o nosso país em 2017 – procurando demonstrar a importância de termos um bom sistema público de proteção social. Existe evidência de que o SNS amorteceu os efeitos da crise financeira… À exceção de alguns indicadores de Saúde Mental, os macroindicadores de saúde não sofreram grandes alterações, embora alguns sinais surjam quando afinamos a análise. E porque é que isto aconteceu? Talvez porque, apesar de tudo, o SNS representa uma boa almofada social… Mesmo as pessoas mais necessitadas, continuaram a ter o apoio do SNS.

Na comunicação social, as manchetes fazem-se com parangonas como “Escândalo: um milhão de portugueses sem médico de família!”. Mas, podemos por as coisas ao contrário e questionar quantos são os países no mundo em que mais de 90% da população tem MF atribuído. E aí, estamos nos primeiros 10 entre 190 países.

 

Na comunicação social, as manchetes fazem-se com parangonas como “Escândalo: um milhão de portugueses sem médico de família!”. Mas, podemos por as coisas ao contrário e questionar quantos são os países no mundo em que mais de 90% da população tem MF atribuído. E aí, estamos nos primeiros 10 entre 190 países

 

JM | “Humilde”, “carreira irrepreensível”, “dedicado às pessoas” e “humanista” são alguns dos adjetivos que lhe são transversalmente dirigidos. Identifica-se com esta descrição?

VR | Fico sensibilizado. Identifico-me sobretudo com a humildade e com a dedicação às pessoas, caraterísticas que herdei do meu pai.

 

JM | Conseguiu, na cerimónia de atribuição do galardão, a proeza de colocar o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Miguel Guimarães, e o ministro da saúde, Adalberto Campos Fernandes, a trocarem elogios mútuos. Não é para todos…

VR | [Risos] Isso terá que ver com as suas [deles] conveniências e não tanto com a minha pessoa…

 

JM | Como tem acompanhado o desempenho de cada um destes colegas nas suas respetivas e atuais funções?

VR | Acredito que cada um faça o seu melhor. Quando trabalhei no gabinete ministerial pude aperceber-me que ali existe pouco poder! Isto é, o poder é muito relativo, porque o gabinete anda a “toque de caixa” da comunicação social. São vocês, jornalistas, que marcam o ritmo! O que não é necessariamente mau, mas não deixa de ser uma distorção. Deveria ser mais equilibrado.

 

JM | Está a querer dizer-me que nós, jornalistas, somos não o quarto, mas o primeiro poder [risos]?

VR | [Risos] Não tenha dúvidas! Vocês são o primeiro poder, porque nestas sociedades que dependem muito do parecer, o poder político está fragilizado.

 

JM | “Fragilizado” é um adjetivo que, infelizmente, também se adequa ao jornalismo…

VR | Porque há uma dominância desproporcionada do poder financeiro no mundo, que condiciona o trabalho dos jornalistas, bem como o poder político à escala global.

 

JM | Já sabe que destino dar ao valor pecuniário do Prémio Miller Guerra?

VR | Ainda não pensei nisso… Mas, certamente que irei por rigorosamente em dia as minhas quotas de todas as organizações a que pertenço, bem como reforçar alguns donativos que já faço habitualmente. Investirei na minha formação e em projetos/atividades em prol individual, familiar e coletivo.

 

JM | Que mensagem gostaria de endereçar aos internos e jovens médicos de MGF que vão ler esta entrevista?

VR | Gostaria de lhes lembrar que a fase que agora se inicia nos CSP vai ser obra deles. Que têm a oportunidade e a responsabilidade de a tomar nas mãos. Se foi possível fazer este percurso até agora, foi porque houve um grupo que o fez. Agora é um novo tempo e estou firmemente convencido, por vários motivos, que as próximas décadas serão a “idade de ouro” da MGF portuguesa.

 

Uma “carreira exemplar dedicada aos doentes”
Victor Ramos esteve envolvido nos projetos-piloto que inspiraram a criação das atuais USF – o “Projeto-Alfa” e os grupos do Regime Remuneratório Experimental (RRE) – e tem uma carreira de quatro décadas dedicada à MGF e aos CSP.
Atualmente trabalha como médico de família no Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) de Cascais, tendo participado na constituição da USF Marginal, em 2007, e de São João do Estoril, em 2014. Está ainda ligado à Fundação para a Saúde - SNS e à USF-AN.
É cofundador da APMGF e teve responsabilidades em órgãos dirigentes e consultivos da OM, tendo recebido em 2006 a medalha de ouro por "serviços distintos" do Ministério da Saúde. É também docente na ENSP da Universidade Nova de Lisboa e participou em várias missões internacionais da OMS e da União Europeia.
Nascido em Évora há 64 anos, Victor Ramos licenciou-se em 1976 na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, tendo começado a carreira por prestar serviço médico à periferia em localidades rurais do concelho de Évora.
O júri do Prémio Miller Guerra – atribuído a Victor Ramos no final do ano passado – destaca "uma carreira exemplar dedicada aos doentes e à defesa de melhores condições da carreira de MGF e dos CSP em Portugal".
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